O que é sofrimento e quando ele tem sentido

Nem todo sofrimento precisa ser eliminado. Alguns precisam ser atravessados. Entenda a diferença.

COMO A MENTE FUNCIONA

Laurielly Rocca

8/24/20264 min read

Vivemos num tempo que trata todo sofrimento como erro.

Como se a vida bem vivida fosse aquela em que nada dói. Como se a ausência de dor fosse o critério de saúde. Como se o objetivo da psicologia, da filosofia e de toda prática de desenvolvimento fosse, no fundo, chegar a um estado em que o sofrimento não chega.

Aristóteles sabia que esse objetivo é impossível. E Tomás de Aquino sabia que, mesmo que fosse possível, não seria desejável.

Algumas dores fazem parte da estrutura da vida humana. E tentar eliminá-las todas é, em si, uma forma de adoecer.

Três tipos de sofrimento

A Psicologia Tomista permite distinguir três tipos de sofrimento que frequentemente são confundidos e, por isso, tratados da mesma forma quando deveriam ser tratados de formas completamente diferentes.

O primeiro é o sofrimento-sinal. É o sofrimento que indica que algo está errado, que um desvio aconteceu, que uma situação precisa mudar. A ansiedade que sinaliza uma relação desordenada com o controle. A tristeza que sinaliza uma perda não elaborada. A raiva que sinaliza uma injustiça que precisa ser nomeada. Esse sofrimento tem uma função: ele chama atenção para algo que precisa ser visto. Tratá-lo sem ouvir o que ele diz é suprimir o alarme sem apagar o fogo.

O segundo é o sofrimento-inerente. É o sofrimento que faz parte da condição humana e que não indica nenhum desvio específico que precise ser corrigido. A dor da perda de alguém amado. O luto diante do fim de um ciclo. A dificuldade de escolhas que exigem renúncia. A solidão que às vezes acompanha o crescimento. Esse sofrimento não é sinal de que algo está errado. É sinal de que você está vivo, que amou, que escolheu, que se importou. Tentar eliminá-lo é, frequentemente, tentar não sentir o peso da própria vida.

O terceiro é o sofrimento-formativo. É o sofrimento que acompanha o processo de mudança real, de amadurecimento, de desenvolvimento do caráter. A dificuldade de manter um compromisso difícil. O desconforto de agir diferente dos padrões antigos antes que os novos se consolidem. A tensão de sustentar uma escolha custosa porque é a escolha certa. Esse sofrimento não é sinal de que o caminho está errado. É frequentemente sinal de que o caminho está certo.

O problema da anestesia

A cultura contemporânea tem um reflexo quase automático diante de qualquer sofrimento: aliviá-lo o mais rápido possível.

Esse reflexo é compreensível. O sofrimento é desagradável. E há sofrimentos que devem ser aliviados com urgência, especialmente o sofrimento-sinal que está sendo ignorado há tempo demais.

Mas quando o reflexo de aliviar se aplica indiscriminadamente a todos os tipos de sofrimento, o resultado é o que Aristóteles chamaria de anestesia da alma: uma incapacidade progressiva de tolerar o que é difícil, de permanecer no desconforto necessário, de atravessar o que precisa ser atravessado.

A pessoa que nunca deixa a tristeza pousar não elabora o luto. A pessoa que imediatamente distrai qualquer desconforto não desenvolve a tolerância à frustração. A pessoa que elimina todo sofrimento-formativo antes de deixá-lo trabalhar não amadurece.

O paradoxo é que a busca pela ausência de sofrimento pode produzir, a longo prazo, uma vida mais frágil e mais exposta ao sofrimento do que a vida de quem aprendeu a atravessar o que precisa ser atravessado.

O sofrimento que tem sentido

Há uma distinção que Tomás de Aquino aprofunda com precisão: a diferença entre sofrimento que destrói e sofrimento que transforma.

O sofrimento que destrói é aquele que não encontra nenhuma integração na vida da pessoa. Ele não revela nada, não forma nada, não leva a lugar nenhum. Simplesmente acontece e deixa a pessoa mais diminuída do que antes. Esse sofrimento é um mal genuíno e deve ser enfrentado como tal.

O sofrimento que transforma é aquele que, atravessado com consciência e com fortaleza, produz algo que não existia antes: maior capacidade de compaixão, maior clareza sobre o que verdadeiramente importa, maior liberdade em relação ao que antes parecia indispensável, maior humildade diante dos limites do controle humano.

A diferença entre os dois não está no tipo de evento externo. A mesma perda pode destruir uma pessoa e transformar outra. A diferença está na postura interior: se a pessoa consegue, no tempo certo, fazer algo com o sofrimento em vez de simplesmente sofrer.

E fazer algo com o sofrimento não significa encontrar imediatamente um significado positivo para ele, nem apressar o processo, nem performar uma aceitação que não é real. Significa permanecer presente ao que está acontecendo, com toda a fortaleza que é possível mobilizar, e deixar que o processo trabalhe.

O papel da fortaleza e da prudência

Duas das virtudes que já discutimos têm papel central na relação com o sofrimento.

A fortaleza é o que permite suportar o que é difícil sem fugir nem desmoronar. Ela não elimina o sofrimento. Ela nos torna capazes de permanecer nele quando é necessário permanecer. E discernir quando é necessário permanecer é exatamente o que a prudência faz.

A prudência é o que permite distinguir os três tipos de sofrimento. Ela reconhece o sofrimento-sinal e ajuda a identificar o que ele está revelando. Ela reconhece o sofrimento-inerente e não tenta corrigi-lo onde não há o que corrigir. Ela reconhece o sofrimento-formativo e sustenta o processo em vez de interrompê-lo prematuramente.

Sem prudência, toda dor parece igual e a resposta tende ao extremo: ou a supressão imediata ou a resignação passiva. Com prudência, é possível uma resposta diferenciada que serve ao bem real da pessoa.

Sofrimento e identidade

Há um aspecto do sofrimento que raramente é discutido com a honestidade que merece: o sofrimento que foi integrado à história de uma pessoa pode se tornar parte do que ela é de forma que não seria possível sem ele.

Isso não é uma glorificação do sofrimento. Não é dizer que o sofrimento é bom em si mesmo. É reconhecer que há pessoas que, atravessando perdas reais, desenvolveram uma profundidade que não teriam desenvolvido de outra forma. Que há compassividade que nasce do próprio sofrimento e que não é simulável. Que há sabedoria que só se adquire pagando um preço.

Aristóteles não chamaria isso de resignação. Chamaria de maturidade: a capacidade de integrar o que acontece, bom e mau, numa vida que permanece orientada ao florescimento.

Uma última pergunta

A pergunta com que quero encerrar este artigo é simples.

Qual sofrimento você está tentando eliminar quando deveria estar atravessando?

Não como desafio. Como convite à honestidade.

Porque frequentemente a diferença entre uma vida que avança e uma vida que estagna está exatamente aí: não na quantidade de sofrimento que se experimenta, mas no que se faz com ele.

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