O que é o bem humano e por que essa pergunta importa para a psicologia
Toda psicologia pressupõe uma visão do que é bom para o ser humano. Raramente essa pressuposição é examinada.
FUNDAMENTOS — PSICOLOGIA E FILOSOFIA
Laurielly Rocca
9/21/20265 min read


Toda psicologia tem uma resposta implícita para a pergunta: o que é uma vida bem vivida?
A terapia cognitivo-comportamental pressupõe que uma vida bem vivida é aquela em que os pensamentos disfuncionais foram corrigidos e o comportamento está adaptado ao ambiente. A psicologia positiva pressupõe que é aquela em que as emoções positivas superam as negativas e os pontos fortes estão sendo exercidos. A psicanálise pressupõe que é aquela em que os conflitos inconscientes foram elaborados e o ego governa com mais autonomia.
Nenhuma dessas pressuposições é neutra. Todas envolvem uma visão do que o ser humano é e do que é bom para ele. E quase nenhuma delas examina essa visão explicitamente.
A Psicologia Tomista é uma das poucas que diz a resposta em voz alta. E examinar essa resposta muda completamente a forma de entender saúde, sofrimento e desenvolvimento.
A pergunta que antecede todas as outras
Em psicologia, há perguntas técnicas — como funciona o cérebro, quais intervenções reduzem sintomas, como os hábitos se formam — e há uma pergunta que antecede todas elas: para onde o ser humano tende quando se desenvolve plenamente?
Sem responder essa pergunta, não há como definir o que é saúde psicológica, porque saúde é sempre relativa a um padrão de funcionamento pleno. Não há como definir o que é sofrimento significativo, porque sofrimento é sempre relativo a um desvio de algo. Não há como definir o objetivo do processo terapêutico, porque qualquer objetivo pressupõe uma direção.
Aristóteles fez dessa pergunta o ponto de partida de toda a sua ética. E a resposta que deu — o bem humano é a eudaimonia, o florescimento das capacidades que nos são próprias enquanto seres humanos — ainda é, vinte e cinco séculos depois, uma das mais precisas disponíveis.
O que Aristóteles entende por bem humano
Para Aristóteles, o bem humano não é um estado a ser atingido, nem uma experiência a ser acumulada, nem um conjunto de condições externas a ser garantido.
É uma atividade.
Mais precisamente: é a atividade excelente da alma segundo a virtude. O ser humano floresce quando exerce suas capacidades próprias de forma excelente, orientado ao bem, ao longo do tempo.
Isso tem três implicações que vale desdobrar.
A primeira: o bem humano é ativo, não passivo. Você não recebe o florescimento. Você o realiza. Pela forma como escolhe, age, se relaciona, desenvolve suas capacidades ao longo do tempo. É por isso que a Psicologia Tomista insiste tanto na liberdade e na responsabilidade: elas são condições necessárias do florescimento.
A segunda: o bem humano é específico à natureza humana. Não é o bem de qualquer ser vivo, mas o bem de um ser que tem razão, vontade, linguagem, relações, orientação ao transcendente. O florescimento humano exerce todas essas capacidades, não apenas algumas.
A terceira: o bem humano é sustentado ao longo do tempo. Não é um momento de pico, não é uma experiência intensa, não é um estado transitório. É uma vida inteira orientada de determinada forma. É o que Aristóteles quer dizer quando diz que uma andorinha não faz verão: um ato virtuoso não constitui uma vida virtuosa, assim como um dia feliz não constitui uma vida feliz.
Bem real e bem aparente
Uma distinção fundamental que a Psicologia Tomista herda de Aristóteles e Tomás de Aquino é a distinção entre bem real e bem aparente.
O bem aparente é aquilo que se apresenta como bom para o apetite ou para a percepção imediata. O prazer, o conforto, a aprovação, a ausência de dificuldade: todos esses se apresentam como bens e, em muitos casos, são bens reais. Mas quando se tornam o critério último do que vale a pena buscar, distorcem a orientação da vida.
O bem real é o que verdadeiramente serve ao florescimento humano, ao desenvolvimento das capacidades próprias do ser humano, à orientação ao bem que transcende o momento imediato.
Essa distinção não é moralizante. É descritiva: há uma diferença entre o que parece bom agora e o que é verdadeiramente bom para o ser humano. E parte do trabalho de desenvolvimento do caráter é precisamente aprender a distinguir os dois com maior precisão, a exercitar a prudência que orienta o apetite em direção ao bem real em vez do bem apenas aparente.
O que isso distingue a Psicologia Tomista das abordagens relativistas
Muitas abordagens psicológicas contemporâneas são, em maior ou menor grau, relativistas quanto ao bem: o que é bom é o que a pessoa valoriza, o que a faz sentir-se bem, o que está alinhado com seus próprios critérios de sucesso. O papel do psicólogo é ajudar a pessoa a alcançar o que ela mesma define como bem, não questionar se o que ela quer é verdadeiramente bom para ela.
Essa postura tem uma origem legítima: o respeito pela autonomia do paciente, a recusa de impor valores externos, o reconhecimento de que há diversidade genuína nos caminhos para o florescimento humano.
Mas ela tem um limite: se qualquer coisa que a pessoa queira é igualmente boa, não há como distinguir o desenvolvimento do regresso, a liberdade real da escravidão ao desejo imediato, o amadurecimento da estagnação. A psicologia perde sua capacidade de orientar.
A Psicologia Tomista assume que há uma natureza humana, que há capacidades que lhe são próprias, e que o florescimento humano é o exercício excelente dessas capacidades. Isso não elimina a diversidade dos caminhos nem ignora as diferenças individuais. Mas dá um padrão de referência que nenhum relativismo consegue prover.
Saúde como orientação ao florescimento
Uma das consequências práticas mais importantes dessa visão é a redefinição de saúde psicológica.
Para a Psicologia Tomista, saúde não é ausência de sintomas. Não é bem-estar subjetivo elevado. Não é adaptação ao ambiente. É orientação ao florescimento: a disposição progressiva de agir de acordo com o que é verdadeiramente bom, de desenvolver as capacidades próprias do ser humano, de sustentar essa orientação ao longo do tempo.
Isso tem implicações diretas para a clínica. Uma pessoa pode ter poucos sintomas e estar muito distante do florescimento. Uma pessoa pode ter sofrimento real e estar num processo genuíno de desenvolvimento. O critério de saúde não é o estado momentâneo, mas a direção.
E o critério de sofrimento não é apenas a experiência subjetiva de dor, mas também e, principalmente, o desvio da orientação ao bem. O sofrimento que resulta de viver contra o próprio telos é tão real quanto o sofrimento físico, mesmo que seja menos visível.
Por que essa pergunta importa para você
Este artigo é mais abstrato do que a maioria neste blog. É deliberadamente assim: a pergunta sobre o bem humano é fundacional, e fundações raramente aparecem na superfície.
Mas ela importa de forma muito prática.
Porque a resposta que você dá, implícita ou explicitamente, à pergunta o que é bom para mim determina as escolhas que você faz, o que você persegue, o que você recusa, o que você tolera e o que você não tolera em sua própria vida.
Se a resposta implícita é maximizar o prazer imediato, você tomará certas decisões. Se é evitar o sofrimento a qualquer custo, outras. Se é impressionar as pessoas ao seu redor, outras ainda.
E, se a resposta for, como a Psicologia Tomista propõe, realizar plenamente o que você é por natureza, por meio das virtudes, orientado ao bem real, ao longo de uma vida inteira, a direção das escolhas muda de forma fundamental.
E agora?
No próximo artigo, vamos aplicar esse fundamento a uma área muito concreta da vida: o trabalho. O que significa trabalhar de forma que o que você faz tenha a ver com quem você está tentando se tornar, e por que essa questão é mais urgente e mais difícil do que a dicotomia paixão versus pragmatismo consegue capturar.

